‘Lisbela e o Prisioneiro – O Musical’ transporta a peça de Osman Lins para o picadeiro

Trapézio. Ligia Paula Machado e Luiz Araújo: rodopios da paixão Foto: CAIO GALLUCC/DIVULGAÇÃO

Musical estreia nesta sexta-feira, 10, no Teatro Nair Bello, em SP

Autor de obras fundamentais da literatura brasileira, como Nove, Novena e Avalovara, o escritor pernambucano Osman Lins (1924-1978) acreditava que a escrita não podia fazer concessões. Mesmo no teatro, gênero que via principalmente como forma de entretenimento. Foi assim que buscou histórias ouvidas por amigos e familiares no Nordeste, assim como pesquisou ditados, expressões e até mesmo dísticos escritos em para-choque de caminhões para escrever Lisbela e o Prisioneiro, uma das mais graciosas peças da dramaturgia nacional.

É justamente o tom lúdico que marca Lisbela e o Prisioneiro – O Musical, que estreia nesta sexta-feira, 10, no Teatro Nair Bello. A trama continua a mesma que consagrou a inúmeras montagens da peça assim como a versão cinematográfica de Guel Arraes – artista mambembe, Leléu (Luiz Araújo) chega à cidade de Vitória de Santo Antão com seu circo, após se engraçar com mulher de um matador de aluguel, o vilão Vela de Libra (Fernando Prata). Na cidade, Leléu conhece Lisbela (Ligia Paula Machado), que está de casamento marcado com Douglas (Beto Marden), mas eles se apaixonam irremediavelmente.

“Na versão musical, promovemos o encontro do real com a fábula, ou seja, o que o espectador acompanha é a história desse amor apresentada como uma peça do circo do Leléu”, conta Francisca Braga, responsável pela adaptação e supervisão geral do espetáculo. “É um espetáculo puramente circense.”

Por conta disso, o elenco de oito atores não apenas interpreta e canta, como ainda participa de números de circo ao lado de cinco acrobatas, que também têm função dramática, participando das cenas. Trapézio, tecido acrobático, corda indiana, malabares, clown, mágica e acrobacias de solo irrompem no palco com grande naturalidade, sob a coordenação do artista circense Roger Pendezza, que se baseou nos artistas mambembes brasileiros.

Para completar, ainda tem coreografias de balé, forró, samba e roller dance, executada em patins. “Tudo isso exige um grande esforço físico e muito ensaio para evitar vozes ofegantes durante um número musical”, conta Ligia que, não bastasse atuar, também ajudou a criar as coreografias, divide a direção com Dan Rosseto e trabalhou na captação de recursos, o que já garantiu a temporada se estender, depois de São Paulo, ao Rio, Porto Alegre, Curitiba e ainda uma cidade de Santa Catarina, a definir.

Tamanha engrenagem só funciona hoje com perfeição porque Ligia, Francisca e Rosseto começaram a trabalhar no projeto há dois anos. “Foi quando iniciamos o preparo circense”, conta a atriz, enquanto Francisca fazia a pesquisa de canções que seriam incluídas na montagem. “Selecionei 14, apenas as que de fato teriam uma função dramatúrgica”, comenta ela, orgulhosa de garimpar desde clássicos, como Rosa, de Pixinguinha, até três composições pouco conhecidas de Zé Ramalho: Modificando o Olhar, Noite Preta e Corações Animais (veja lista abaixo). “E não pude deixar de fora aquela que todos esperam, Você Não Me Ensinou a Te Esquecer, do Caetano Veloso.”

Enquanto a eleição das músicas progredia (processo quase infinito, pois a lista foi modificada até poucos dias antes da estreia), Dan Rosseto buscava criar a melhor encenação que se adaptasse àquelas canções. “Utilizei a linguagem do teatro musical brasileiro, que é diferente do da Broadway.”

Isso significa que os oito músicos que ficam em cena também participam como atores, formando, por exemplo, a corpo de soldados da cidade. “Cuidamos de todos os detalhes, inclusive na interpretação”, conta Ligia. “Os personagens passam por transformações. Lisbela, por exemplo, começa a história como uma menina ingênua e termina como uma mulher que briga pelo seu amor.”

Fontehttp://cultura.estadao.com.br/noticias/teatro-e-danca,lisbela-e-o-prisioneiro-o-musical-transporta-a-peca-de-osman-lins-para-o-picadeiro,1666925

"A história do teatro brasileiro é povoada de atrizes empreendedoras, que, em vez de ficar em casa à espera de um convite, resolveram arregaçar as mangas e produzir seus próprios espetáculos".

Miguel Arcanjo Prado

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